Tenho uma amiga que é muito chegada, e tem medo de médico; por isso, a acompanhei em sua consulta. Porém, no momento fatídico, aquele em que, com sua voz maquiavélica, a enfermeira chamou seu nome, e aquela voz ecoou por todas as paredes do recinto, e todos no local olharam com um olhar compadecido, pensando “o que será que se passa com essa pobre alma?” – nesse momento, ficamos sabendo que eu não poderia entrar na sala juntamente com ela. Ainda lembro de seu olhar amedrontado, dizendo “tudo bem, me espera aqui”. Sim, eu iria esperar. Eu estava lá minha amiga. Não iria deixar nenhum médico de olhos fazer mal a você.
Cruzei as pernas e os braços, e fiquei naquela sala de espera por um bom e longo tempo. Então vi uma senhora aproximar-se do balcão, e a secretária iniciou seu interrogatório, com o maior dos sorrisos estampado em sua cara.
- Está calor, não está? Como é o seu nome? A senhora já fez alguma consulta por aqui? É casada?
- Viúva...
Viúva. Já conheci várias viúvas, mas nunca havia prestado atenção no que isso quer dizer.
Então imaginei-a na minha idade, ou pouco mais nova. Imaginei quando pela primeira vez ela viu o que viria a ser seu marido. Será que se apaixonou a primeira vista, ou no começo não tinha nem olhos para ele?
Imaginei o início do namoro, eles andando de mãos dadas. Imaginei-a como eu, cheia de dúvidas quanto ao futuro...
Depois percebendo que era aquilo que ela queria mesmo, e então deixando seu coração amar; noivando, casando...
Vivendo uma vida nova, e tendo filhos. Será que brigaram? Será que ela escolheu o nome do primeiro filho? Talvez gostassem da casa em que moravam, talvez não. Talvez tivessem um cachorro, talvez quisessem comprar um carro novo, talvez tivessem muitos sonhos.
Então o tempo foi passando... e num belo dia, seu amor foi embora. Aqueles sonhos em conjunto agora eram dela só. Só. Quantos dias ela chorou? Talvez tenha ficado fechada em seu quarto, pensando. E na hora em que comumente ele chegava em casa, aí seu coração apertava, lembrando que ele não ia mais chegar.
Então, ao preencher formulários, ao invés de casada, agora ela coloca viúva. Será que ela sente toda essa saudade, toda vez que lê essa palavra? Viúva...
Naquele dia eu fiquei impressionada, e em todo o caminho pra casa eu fui pensando nisso.
Quando cheguei, toquei no assunto com minha avó; minha avó é viúva. Seus olhos encheram de lágrimas. Ela me disse que a vida é assim mesmo, as pessoas que a gente ama vão embora. A gente entrega um pedacinho do coração a cada uma delas, e quando elas vão, levam esse pedacinho com elas.
E assim, pedacinho por pedacinho, nosso coração vai ficando pequeno. E quando ficamos bem velhos, de tão pequeno ele não agüenta mais.
Então a gente vai embora também.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
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