Aquela mulherzinha não tinha mais que 4 anos de idade. Era um fim de tarde, na praça, em frente à igreja, e apesar do borbulho de pessoas e carros passando, estava tudo calmo. O único som que se ouvia provinha de uma mãe, em cujo rosto notava-se sinais de leve impaciência. Trazia a filha mais velha pela mão, e no colo um pequeno cão, todo cheio de frufrus e com o pelo mais alvo que a neve. Como a filha mais nova não obedecesse, a mãe veio e sentou-se num banco, ao lado do meu. A filha mais velha passeou em volta, mas sempre de olho na mãe. O cachorrinho olhou em volta com desdém, e sentou-se, pois não tinha lugar melhor para ir.
Quando viu a cena, a mulherzinha, lá da frente da igreja, gritou pela mãe. As senhoras que estavam na missa voltaram-se, com um olhar desaprovador. A mãe, provavelmente acostumada com as manhas da filha, fez que nem viu. A mulherzinha – e a chamo de mulherzinha justamente pelas poses, caras e bocas que fazia – pôs as mãos na cintura, bateu o pé e fez uma cara feia. Gritou de novo, agora olhando para o lado da irmã. A irmã parecia a própria mãe em miniatura, fez que não viu, fez que viu um pássaro, mas continuava de olho na mãe, que aprovou sua atitude. A pequena ficou desapontada. Ninguém iria voltar para brincar com ela, correndo em frente à igreja. Finalmente, embora com a cara fechada, decidiu ir até sua mãe. Ainda fez uma manha, mas com os passinhos lentos começou a andar. Deu uma ajeitadinha na mini saia, passou as mãos no cabelo, e apertou o passo para ouvir o “toc toc” das botinhas. Começou a andar rapidamente, para mostrar ao mundo que aquele desapontamento não a afetava.
Chegando ao banco, chamou o cachorro. O cachorro teve a mesma atitude da mãe e da irmã mais velha: fez que não viu. A mãe tinha uma expressão indecisa: não sabia se ria da situação, ou se ralhava com a pequena manhosa. Achou melhor não se intrometer, pra ver até onde iam as coisas. A pequena deu alguns passos para trás e gritou: “Scooby!”. O cachorro olhou para ela, olhou para a mãe, e ajeitou-se melhor no colo desta. A mulherzinha se enfureceu, agora era uma questão de honra. Ajoelhou-se, deu uma batidinha nas pernas e gritou:
- Scooby!
O Scooby nem se moveu. Então ela sorriu e fez a voz mais meiga do mundo:
- Scooby, Scooby!
Realmente aquele era um cachorro difícil. Sequer levantou a cabeça para olhar para a menina. Nem a meiguice dela o havia convencido.
Diante do total desprezo do cachorro, e da indiferença da mãe às suas manhas, ela já não tinha o que fazer. Começou a praguejar e choramingar, em um altíssimo tom de voz, numa linguagem própria, mais ou menos assim:
- Mamã o iscubi nhã nhã ahãhã quelo ir la ele não vem hãhãã.
As senhoras da missa agora voltavam-se completamente, pois o som feroz da mulherzinha fazia eco na praça. Para a mãe, foi a gota d’água. Levantou-se, pegou o cão presunçoso, chamou a filha mais velha, e foi andando. A pequeninha batia os pés, firme na sua posição de continuar ali na praça. Não importava se a temperatura caía, se estava começando a escurecer, se as senhoras da missa já se mexiam nas cadeiras – queria ficar ali! Virou de costas para a mãe, como num ato de total revolta. A mãe não deu pelota, continuou seu caminho. Quando a pequena virou, já não viu mais ninguém. Olhou a sua volta e percebeu que, apesar de ser uma mulher decidida, o mundo era muito grande e ela muito pequena. Com o orgulho ferido, desandou a correr, e o eco na praça agora dizia:
- Pelai mamãe!
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Você conta bem histórias =)
ResponderExcluirO posicionamento das palavras e os termos utilizados. Parabéns ;D
Sobre a menininha, espero que ela vá aprendendo sobre ser mais simples com o decorrer do tempo, e ela é bem novinha, tem muitas chances de mudar esser comportamento. Não sei como essa família convive, mas a mãe parece não ter ensinado muitas coisas que pudessem criar um caráter diferente na filha...
Mas claro, tudo isso digo de uma observação completamente superficial, julgando apenas por um acontecimento que nem vi heuueuheueuheu :S