Estava tomando café, sozinha, no hotel. Era perto das 9 horas da manhã, e já fazia calor. O dia estava bonito.
Ali no restaurante uma música calma. Pessoas entrando, procurando lugar, mastigando, conversando. Não havia muita gente, de modo que me foi possível observar algumas cenas interessantes, como aquela mulher tropeçando, e aqueles japoneses falando freneticamente.
Não sei por que virei o rosto - afinal, japoneses falando freneticamente é algo que chama atenção - mas pude ver aquele casal que entrava. Um casal de velhinhos. Foram inspecionando o local até chegar à mesa. Achei-os tão simpáticos, que fiquei observando.
A senhora sentou. O senhor apoiou as mãos na cadeira, mas não sentou, foi logo servir-se. A senhora ainda ficou uns instantes olhando-o, então foi pegar seu suco. Começaram a escolher: ela pegava um bolinho, ele pegava um pãozinho. Ela pegou um folhado, ele pegou um biscoito. Ela foi pegar um pão de queijo, havia acabado. Nesse instante ele já estava indo em direção à sua mesa, mas parou. Ela não disse nada, nem olhou pra ele. Ele pediu para o garçom trazer pão de queijo. A senhora continuou sem nem olhar para o senhor. Ele sentou-se.
Ela pegou o que queria e foi sentar também.
Sorriu ao sentar.
Foi retribuída com um sorriso e seus movimentos, acompanhados por um longo olhar.
Ela disse algo em relação ao suco. Ele acenou com a cabeça. Começaram a conversar, uma conversa empolgada, e olhavam-se fundo dentro dos olhos. Cada um prestava atenção em cada palavra do que o outro dizia, e comentava, e gesticulavam, e sorriam. Queria ter ouvido a conversa, mas isso já é bisbilhotice de minha parte.
Ele levantou, pegou mais alguns petiscos. Levava até a mesa, voltava e trazia um igual para ela. Sentou. Ela arrumava as coisas em volta dele, como se soubesse ordinalmente o que ele iria comer.
Ele pegou sua mão, colocou um bolinho e levou até a boca dela.
Ri da cena. Foi como um recado, “cada um com a sua comida”.
A senhora acabou seu suco, olhou-o comer. Ele parou de mastigar, olhou para ela e assentiu com a cabeça. Ela levantou e saiu. Ele ainda ficou um pouco com o queixo apoiado nas mãos entrecruzadas. Levantou-se, foi até a mesa de sucos, tomou um copo cheio. Gostou. Foi embora.
Fiquei ainda um tempo no clima daquela cena que acabava de ver. Apaixonei-me por aquele casal senil, que se conhecia tão bem, e há tanto tempo que já sabiam tudo o que um e outro queria, fazia, e mesmo assim ainda continuavam ouvindo atenciosamente um ao outro.
Acho que é isso que faz as pessoas ficarem juntas... o sabor de ter um companheiro que dê importância aos pequenos gestos, e ache tudo particular e característico. O mundo é tão cheio de gente, ninguém chama atenção. Mas você sempre lembra e é lembrado por alguém a quem ama.
Ainda quero ter alguém assim... Que, mesmo depois que eu vá embora, levante e experimente o suco que eu recomendei.
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ResponderExcluirÉ difícil ver casais chegarem à uma idade avançada nesse nível. Mas acho que é porque não sabem ter paciência pra escolher a pessoa certa. Não sei, me parece que a maioria sempre está numa correria danada pra encontrar alguém. Uns querem sair por aí ficando com qualquer uma sem compromisso, e com isso perdem sua visão sobre um relacionamento bom. Outros são românticos mas desesperados, e querem encontrar na primeira pessoa que vêem um amor eterno, e muitas vezes isso as leva a ter um relacionamento não muito saudável pro resto da vida. O encontrar alguém com quem possamos ir até o fim da vida é algo lindo demais. Alguém que esteja do nosso lado e com quem estejamos ao lado, sempre. Mas isso é uma questão de paciência para encontrar essa pessoa especial, que todos deveríamos ter, até por auto-respeito. Não acho que existe essa de existir apenas uma pessoa que possa preencher essa posição na vida de alguém, mas com certeza um grupo de pessoas. Basta ter paciência para encontrar alguma pessoa desse grupo e ser feliz com o achado. =)
Nóssa, realmenti legal e tocanti essa história dos vélhinhos, poucas vezes se vê casais que ném o deles, na grande maioria só discutem coisa e tal, mas há alguns casais que se amam de verdade, que se entendem, que ouvem um ao outro, que prestam atenção nos mínimos detalhes da pessoa amada, pena que esse tipo de casal está praticamenti em extinção! Espéro eu um dia poder ser um vélhinho feliz por ter encontrado minha vélhinha alma gêmea, só não precisa ser só quando eu estivér vélho, espéro que seja alguém que eu encontre e que eu ama e que éla me ame, e então poderemos envelhecer juntos, felizes para sempre, que ném nas histórinhas infantis.
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