Em outra viagem, eu estava sentada sozinha num ônibus vazio. Realmente, só havia eu de passageira, e a viagem era from Florianópolis até Pato Branco. Umas 3 cidades depois de eu ter embarcado, paramos em uma rodoviária, onde havia apenas um passageiro a embarcar: um velho. Eu olhei pela janela, e minha pessimista mente pensou: quer ver que, com esse ônibus todo vazio, a poltrona dele é justamente a do meu lado?
E aonde você acha que era a poltrona dele? SIM! Ao meu lado! Sinto profundamente que tenho azar nessas viagens. Então, ele não quis sentar nos bancos vazios. Quis sentar na poltrona que ele comprou e que era dele, por direito. Como eu já havia ouvido falar em direitos de consumidor, não contrariei o senhor e até apoiei que ele defendesse seu poder de escolha de lugar.
Apesar de eu querer muito dormir, pois quando chegasse em Pato Branco queria estar animada para reencontrar a família, e teria outra viagem a fazer naquele mesmo dia, e apesar de eu ter expressado claramente essa minha vontade, o velho não quis nem saber. Disse que eu era muito jovem para perder tempo dormindo, e contou a história da sua vida desde que veio do nordeste para São Paulo, pegou o ônibus errado para Santos, e como obra do destino conheceu aquela que se tornaria sua mulher. Então se mudaram para Santa Catarina, tiveram uma filha, a filha casou-se com um policial, foram para o Paraná, e agora a esposa insistia em ir visitá-la todo mês, pois havia duas netinhas. E o senhor? Ah, não gostava de viagens em ônibus, preferia muito mais ficar em casa, a mulher é que o forçava. Mas quando chegava e via o rostinho das netas, não queria mais voltar.
Além dessa e de inúmeras outras histórias, perguntou sobre mim. Se estudava, se tinha namorado, se estava com saudade de casa. E me chamava de Gabi, acho que se sentia meu amigo. Tudo bem, apesar de não ter conseguido dormir, aprendi grandes lições de vida naquele dia.
Viajar ao lado de senhoras e senhores mais “experientes” às vezes é desagradável, mas geralmente é bom. Aliás, viajar ao lado de qualquer ser que converse é bom, pois a vida é feita de experiências, e experiências devem ser compartilhadas. Assim vamos construindo aquilo que se chama de “bagagem” para a vida. Claro que pode ser que você não consiga comer seu salgadinho, ou dormir, ou talvez derramem água em você. Mas seja simpático e sociável, as coisas só acontecem uma vez na vida (perceba que minha convivência com velhos me fez gostar de dar conselhos).
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