sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sobre velhas em ônibus - Parte II

Estando ao lado de outra velha, que aparentava ser muito mais tranqüila do que a primeira, abri meu pote de Pringles que havia comprado especialmente para a viagem. Acontece que a cada batata que eu comia, a velha olhava para mim. Ofereci mais uma vez (já havia oferecido antes de abrir o pote), mas ela disse que detestava salgadinho. Percebi que aquilo era comigo. Fechei o pote do meu tão desejado Pringles e, desapontada, virei para o lado na esperança de dormir. Destaque-se que era na esperança de dormir, pois, francamente leitor, você acha que a velha me deixou dormir?

Porém aos poucos o meu mau-humor foi dando lugar a uma grande empatia pela velha. Conversamos por toda a viagem, até ela chegar em Itajaí. Na verdade, conversamos por toda a viagem até a mãe e filha loucas descerem. Então a velha foi para o banco delas, e me deixou sozinha. Deitei nos dois bancos e coloquei os pés na janela. Foi uma das luas mais bonitas que já vi na minha vida, e tudo estava bom. Como anda sentia fome, algumas vezes puxei o pote de Pringles para perto. Olhava de ponta cabeça para o banco onde a senhora estava, e sim, ela estava me olhando. Então rapidamente eu guardava o salgadinho. Enfim, não senti raiva dela por isso. Se ela estivesse comendo salsicha, ou cebola, ou aquelas rosquinhas de vento que comumente as velhas comem em viagens, eu também detestaria.

No fundo eu senti amor por aquela senhora. Muito mais quando ela me disse que estava indo visitar o irmão que estava nos últimos dias de vida, e que sabia que não havia nada a se fazer. Senti um nó na garganta, mas ela disse que estava tudo bem, todos já estavam confortados – inclusive ele – por saberem que ele iria pra um lugar melhor. Fiquei feliz de ouvir aquilo; quando chegar minha hora também terei a certeza das coisas, e poderei ir aliviada. Mas isso é assunto para outra hora.

Mas o que eu quero mesmo dizer com velhas em ônibus é que elas parecem sempre aflitas, e escolhem as piores horas para fazerem as piores coisas, como abrir aqueles copos de água de ônibus justamente no instante em que o motorista está arrancando. Nessas horas eu sempre coloco a mão tapando o rosto, inconformada.

Nesta última viagem de ida pra Foz, não por vontade minha, que fique bem claro, mas nos sentamos perto do banheiro. Isso é uma regra de viagem: nunca sente perto do banheiro. E ainda eu estava na poltrona do corredor, e todos que passavam para ir ao banheiro batiam em mim. Então, quando o motorista estacionou em uma rodoviária qualquer, a velhinha, ao invés de descer e utilizar o banheiro da rodoviária, não: ela levantou-se e dirigiu-se ao banheiro do ônibus. A minha jovem mente não entende a lógica dessas coisas, mas tudo bem, se ela acha melhor, não vou contrariá-la. Assim, a velhinha entrou no banheiro e começou seu trabalho. Nisso, levantou-se um velho e veio em direção ao banheiro. Eu achei natural, afinal velhos gostam de banheiros desconfortáveis (só consigo concluir isso das situações apresentadas). Então ele abriu a porta, e pasmem: a velhinha de dentro não havia trancado! Desculpe leitor, pode parecer maldade, mas eu ri daquela situação. Porque foram dois “clans” muito rápidos: o de abrir e o de fechar. O velho saiu com os olhos arregalados, sentou em sua poltrona e não olhou mais ao seu redor até chegar ao seu destino.


Continua

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