quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sobre velhas em ônibus

Eu não entendo a disposição de velhinhas de sair por aí viajando de ônibus. Eu, na melhor idade, no máximo compraria uma Harley Davidson e mandaria redobrar o estofado – aí então viajaria pela América do Sul.

Mas as velhas de hoje em dia não. Elas gostam de ônibus, e fim de papo.

E gostam de viajar de dia. Dizem que se sentem agoniadas por não enxergarem a estrada e as coisas que estão acontecendo (ou seja, além de um motorista para conduzir um ônibus, também é necessário uma velha). E ai de você se tiver que viajar com uma.

Certa vez minha avó atrasou uma viagem (a qual faríamos juntas) por dois dias, porque não havia horário de ônibus de dia. A viagem durava 12 horas. Na minha cabeça, não havia nada mais normal do que pegar um ônibus as 23:00, ir dormindo até a cidade-destino, acordar as 11 da manhã, ir para casa e ainda chegar na hora do almoço. Essa era a minha lógica. Mas velhas não gostam disso, elas não gostam de dormir. E velhos também. Eles acham que dormir é para os fracos, que é um desperdício de tempo, e na verdade podem até ter razão. Outro dia li em algum lugar que uma pessoa que vive 60 anos passa 20 anos de sua vida dormindo. O certo seria ficar acordado o tempo todo, inclusive quando se está viajando ao lado de um velho, numa viagem de 12 horas.

Eu não sei se é implicância minha, mas sempre reparo nas velhas em viagens. Eu estava em Curitiba e iria pra Florianópolis, então peguei um ônibus às 21:30 para chegar em Floripa ali pelas 02:30. Já na rodoviária eu reparei em uma senhora que estava fumando como uma máquina, cuja filha, louca como um redemoinho, corria de um lado para o outro – “Mãe, os remédios!”, “Mãe, me dá esse cigarro”, etc. Mas a velha era teimosa, e tinha uma opinião firme: fumaria o quanto quisesse. Eu odeio cheiro de cigarro; por isso, automaticamente meu cérebro pessimista pensou - “Quer ver que essa velha vai sentar ao meu lado?”. Então entrei no ônibus e comecei a procurar pela poltrona de número 13, que é o lado da janela, e que comprei justamente porque a 14 estaria vazia. Chegando na 13, adivinha quem estava lá? A velha! Sem querer o meu cérebro soltou um daqueles palavrões de desabafo, porque realmente eu sabia que aquilo ia acontecer. Mas não sabia que ela iria tomar o meu lugar na janela! Aquilo era o fim.

Muito bem, sentei na 14. Olhei para o banco ao lado, lá estava a filha da senhora. Tranqüila da silva. Não que esse fosse o nome da filha; é que ela estava tranqüila da silva mesmo, por ter se livrado da velha teimosa. E ao lado da filha estava sentada outra velha.

Então, a velha ao meu lado começou a chamar a filha porque queria o remédio, queria bolacha, queria isso e aquilo. A filha tanto se fez de surda, que a velha ao lado dela disse –“Moça, se você quiser, eu troco de lugar com você pra que sua mãe fique mais tranqüila”. Pasmem: até nessa hora a moça se fez de surda! (mas depois eu pensei bem e conclui que até eu me faria de surda se recebesse uma proposta dessas). Então a velha refez a proposta, até que a cidadã percebeu que não haveria como fugir. Porém, a velha ao meu lado não queria sair dali; queria sim que a filha viesse. Tive que me levantar, com o ônibus em movimento, pegar todas as minhas coisas (que eu já havia ajeitado amorosamente), e me mudar.

Fiquei com o lado da janela – mas continuei ao lado de uma velha.


Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

a lonely road, crossed another cold state line

  A nostalgia do tempo frio e o clima de aconchego que preenche qualquer coração vazio Como um cheiro de carne de panela e o vapor que abafa...